1. "sou palavras, estou feito de palavras, mas as palavras não me dizem, tenho de fazer calar as palavras que não me dizem, tenho de calar, e quando as palavras calam e me encontro na intempérie, pergunto ‘quem sou eu?’, não posso deixar de me perguntar porque já não tenho as palavras que me asseguravam, essas palavras que queriam me dizer, mas nas quais não me reconheço, e já estou outra vez nesse espaço sem palavras não posso responder essa pergunta que me inquieta, e tenho de falar, mas falar é impossivel, e calar é impossível, e estou só, e, para não me sentir completamente desgraçado, tenho de continuar contando meu conto a mim mesmo, mas meu conto não me diz, e logo o contar já me escapa, e a pergunta por quem sou volta a me inquietar, e tenho de falar, e não posso falar, e estou só."

    Rousseau, por Larrosa.

     

  2. Nada mais doce que um café amargo e bem forte logo pela manhã. Há coisas melhores, bem sei eu, mas agora, não posso pedir mais que isso.
    Se é que peço. Se é que posso.
    Não importa. Importa que me faz lembrar Ela.

    - Gosta do Sol, meu filho? – minha avó pergunta enquanto estende roupa.

    - Queria ele pra mim. (“-ia”. Futuro do Pretérito. Droga.) É pedir demais? Ou até querer demais? Querer demais existe? O que é demais? Quando se torna demais? Algo se torna ou já é demais? Tá demais, não? – o pensamento me ocorre.

    - Sim, gosto. – realmente respondo.

    Pelas manhãs ensolaradas sento-me na poltrona dela, bem ao lado da janela, como se sentasse ao lado do Sol, como se me fizesse companhia ou vice-versa. Mas fazer companhia para o Sol é querer demais (Isso existe?).
    Logo ele. Com todo seu fogo. Seu Eu. Seu Ego-Heliocentrismo. Com sua majestosa e brilhante coroa. Com todo o calor que ele possui. Em todo o seu tamanho.
    Logo eu, pessoa tão banal, querer servir de companhia pra algo tão rei. Insignificante eu.
    Sem Ego, sem coroa. Me faz lembrar Ela.

    Acordei meio assim hoje. Não que não acorde mais assim nos outros dias. Também não que acorde nos outros dias.
    Acordo em todos os dias de todos os jeitos. Acordo fazendo acordos, como se quisesse fazer as pazes, como se ao abrir os olhos me deparasse com uma guerra. Não vem ao caso…
    Mas sempre tem algum ou alguém que prevalece. Algum - ou mesmo alguém, como disse - que grita e bate. Bate forte pra eu perceber que está lá. Algum que se diz fazer mais presença. Ou alguém. Insignificante…

    Acho que é pelo calor. Estranho, não gosto do calor.
    Não suporto. Me dá nos nervos. Não consigo parar quieto.
    Me dá sempre uma grande moleza. Daquelas que te fazem deitar na rede.

    Rede… Faz-me lembrar Ela, seja como for. De informações ou a do baiano. Sentado e digitando, ou deitado, esperando o Sol se despedir e trazer, com a sua partida, o mar de estrelas e a majestosa Lua.
    Até hoje me pergunto o que/quem traz o que/quem. O quê é o quê. Quem é quem.
    Como se houvesse alguma razão ou loucura.
    Se é perseguição ou se é fuga.
    O Yin e o Yang.
    Opostos e/ou complementares.

     

  3. Olhou-se no espelho imundo, completamente nu, daquele banheiro também imundo. Tentava não olhar para o rombo no meio do peito, aquele buraco negro o qual tinha um imenso ódio de carregar.
    Dizia para si que precisava de um banho quente. Um banho quente, bem quente. Afinal, fazia tanto frio do lado de fora quanto do lado de dentro. Mas, sim, um banho quente era tudo o que ele precisava.
    Ou era o que pensava.

    O banho quente fora trocado pela enxurrada fria de pensamentos onde afogou-se e lá ficara imergido.

     

  4. E não adianta;
    essa coisa de pisar em poça d’água e não afundar até o pescoço
    não é comigo.

     

  5. - O verbo querer é feio…
    - Se é…

    (silêncio)


    - Falei da conjugação dele.
    - Eu também. Afinal, eu quero…


    (silêncio)

     

  6. Quando digo que quero ir para casa ou para qualquer outro lugar só para ter um pouco de paz, não quer dizer que quero ficar sozinho…

     

  7. O que é essa vontade de ter caneta e papel nas mãos? Lápis ou cigarro por entre os dedos? Ou - claro, por que não? - alguém. Ah, meu caro, você bem sabe que é sempre assim em noites como essas os tais pensamentos recorrentes.

    Insônia? Tentativas frustradas de pegar no sono…

    Adiar…

    Ainda se fosse pelo barulho, mas não. O barulho é interno, vem de dentro. Às vezes fico pensando em Clarisse ou Caio F. ou qualquer outro autor e em como e quando escreviam qualquer coisa; como se sentiam; se escreviam pelos bares; nas noites insones ou quando dormiam demais.

    Estariam em plena penumbra ao cheiro de cigarros recém apagados?

    Ah, idiota! Não se compare!

    Por que tal agitação? O que você quer? O que não quer? Você realmente quer?

    É o tal porto?!

    Pff…

    Senti o cheiro do cigarro invadindo o quarto. Será que esse foi o gatilho?

    Agora, aqui, na varanda, em plena Porto Alegre, em pé ao lado de um cinzeiro com cigarros que você não fumou, ouvindo uma vizinha escutar uma rádio qualquer e o ronco de alguém que esteja sonhando com qualquer coisa assim em paz, ou talvez com ela.

    Daonde essa vontade de ter caneta e papel em mãos; lápis ou um cigarro por entre os dedos. Por que não uma mulher que me tirasse a paz ou fizesse encontrá-la? Escrevendo em plena penumbra. Que vontades são essas?!

    Achei que toda a conversa e risadas jogadas fora poderiam ajudar, mas não há risos que tapem os poços em que os pensamentos se transformaram. Pensei que toda a cerveja e, inclusive, o vinho me acalmariam, mas não há álcool que afogue essas vontades.

    Matheus Moreira

     

  8. Voltei àquela casinha.

    Aquela mesma casa cheia de sonhos que havia deixado pra trás. Encontrei carcaças, somente. Desolada, abandonada…

    O tempo devora, você sabe. Andei pelo velho quintal e a grama que era sempre a mais verde não passava de um descampado. O Forte da Aventura fora destruído, sobrando apenas a velha árvore sem vida…

    Devagar fui me aproximando do casebre e as lembranças cortavam como lâminas afiadas, mais fundas a cada passo…

    As paredes de mentiras pintadas com tanto carinho de cores tão vivas e diferentes e o teto que fora tantas vezes remendado de esperanças parecia despedaçar a qualquer outra boa memória que me vinha à mente…

    Me ajoelhei ao chão de incertezas num golpe súbito de desespero e gritei mudo.

    Matheus Moreira

     

  9. Está tudo vazio. A cidade está vazia. As ruas estão vazias. Não há ninguém pelas calçadas. Não há crianças jogando no campinho hoje. Não há sequer cães pela rua. Não há nada. Nada…

    Nem você.

    Um silêncio… Um silêncio ensurdecedor. Tudo não só parece ter emudecido, como parece que perdeu sua cor original. Tudo parece tão longe. Inclusive os pensamentos. As lembranças.

    Sabe, quando penso em você. Quando eu penso em você dá uma saudade. Uma saudade tão doída. Daquelas que você se encolhe todo, o peito murcha, sabe? A gente se sente tão frágil. Como se mais um sopro fosse o suficiente pra desmanchar tudo o que resta.

    E a tua lembrança me persegue aonde quer que eu vá.

    Quando eu olho no espelho do banheiro e não te vejo escovando os dentes ao meu lado. Quando o café que eu faço vai ter que servir só pra mim, mesmo eu tendo feito café pra você também - e eu ainda te sirvo antes de mim, sabia? Eaí vai todo aquele café fora… Quando saio pro trabalho com a minha bicicleta que você tanto cismava que era perigoso, do que poderia acontecer, dizendo pr’eu me cuidar. Que me queria de volta. E ia pensando, pelo caminho, nas coisas que eu ainda queria te mostrar e aonde queria te levar. A sorveteria nova, o boteco que a gente ainda não tinha ido. Completamente despreocupado com o que haveria de acontecer com a gente. Com tudo o que aconteceu pra chegarmos nesse ponto. Eu só queria saber do momento que eu chegava em casa e te via dançando pela casa, com o teu cabelo amarrado e com quase roupa nenhuma, porque era assim que tu gostava e pouco se importava se os vizinhos a vissem. Você só queria se sentir bem. Era só o que tu queria e o que sempre quis. E me recebia de braços abertos, perguntando de mim, do meu dia, me beijava a boca e os olhos. Sim, os olhos. Por que os olhos? 

    (…)

    Matheus Moreira

    adaptado de um roteiro por Lucas Argenta

     

  10. "Dear Karen, 
    If you’re reading this, it means I actually worked up the courage to mail it so good for me. You don’t know me very well, but if you get me started I tend to go on and on about how hard the writing is for me. This is the hardest thing I ever had to write. There no easy way to say this so I’ll just say it, I met someone. It was an accident, I wasn’t looking for it, I wasn’t one the make it was a perfect storm. She said one thing and I said another and the next thing I knew I wanted to spend the rest of my life in the middle of that conversation. Now there this feeling in my gut that she might be the one. She completely nuts in a way that makes me smile highly neurotic, a great deal of maintenance acquired. She is you Karen, that’s the good news. The bad news is that I don’t know how to be with you right now, and that scares the shit out of me. Because if I am not with you right now I have this feeling we will get lost out there. It’s a big bad world full or twist and turns and people have a way of blinking and missing the moment. The moment that could of changed everything. I don’t know what’s going on with us and I can’t tell you should waste a leap of faith on the likes of me. But damn you smell good, like home and you make excellent coffee that has to count for something. Call me! 
    Unfaithfully yours, 
    Hank Moody”