1. "Inspirada em abismos, Tatiana caça no céu saída para seu vício de rastejar em oceanos alheios”

     

  2. "Ela estava ali sentada, na minha frente, casaco azul e botas de combate. E entre o vermelho descascado das suas unhas e os meus olhos brotavam canções. A gente nunca sabe quando vai aparecer o amor."

     

  3. O mesmo mar, a mesma terra à vista. Não estamos no mesmo barco, não. Porque não conseguimos, nem sequer conseguimos arriscar.
    Que medo é esse de dividir medos e prazeres? 
    Daonde vem o medo desse oceano?
    Você me diz que não quer que nos afoguemos, que não nos precipitemos. Mas não há mais nada a ser precipitado quando já existe o oceano inteiro.
    Mas chuvas e tempestades vêm e vão, você me diz. 
    Tudo bem, eu entendo da tempestade do mar.
    O mesmo oceano está acima do meu peito, não respiro, não há luz, não há ar sequer. Oceano que nos invade e toma, não pela mão, mas pelo braço, pela nuca e te puxa, insólito, e te arrasta e te machuca e que te esfola e te fode deixando a alma pra fora e te leva às maiores profundezas durante os momentos mais simplórios e inoportunos.
    Oceano afogado em saudade.

     

  4. "Estamos no mesmo barco, no mesmo mar, velejando para o mesmo lugar, tendo em vista a mesma terra. Mas por que não seguimos juntos? Porque não arriscamos? Porque não vamos atrás do que queremos dividindo os mesmos medos e prazeres? Porque não unimos o “útil ao agradável”? Porque estamos nos precipitando tanto? Porque estamos nos afogando? Porque estamos fazendo esse mar imenso e infinito se tornar um rio de lágrimas? Será que a vida é mesmo tão complicada ou será que é a gente que complica ela?
    Sentir saudade. A saudade é um sentimento que sempre estará ali, não importa quantas horas, anos, dias, meses, pessoas, vidas se passem. Alguns dias ela aparece apertando forte o peito. Alguns aparece durante breves instantes. Alguns nos faz chorar. Outros nos faz sorrir. Alguns não aparece. Alguns aparece antes de dormir. Alguns aparece de repente. Alguns parece que não vamos mais agüentar. Alguns é bom. Alguns não queremos sentir. Mas a saudade, em qualquer hipótese, é algo que nunca deixaremos de sentir.
    Estamos no mesmo barco. E eu te pergunto. Porque tu não vens velejar ou naufragar comigo?”

    Tocando Tiê - Dois

    da Duda

     

  5. "sou palavras, estou feito de palavras, mas as palavras não me dizem, tenho de fazer calar as palavras que não me dizem, tenho de calar, e quando as palavras calam e me encontro na intempérie, pergunto ‘quem sou eu?’, não posso deixar de me perguntar porque já não tenho as palavras que me asseguravam, essas palavras que queriam me dizer, mas nas quais não me reconheço, e já estou outra vez nesse espaço sem palavras não posso responder essa pergunta que me inquieta, e tenho de falar, mas falar é impossivel, e calar é impossível, e estou só, e, para não me sentir completamente desgraçado, tenho de continuar contando meu conto a mim mesmo, mas meu conto não me diz, e logo o contar já me escapa, e a pergunta por quem sou volta a me inquietar, e tenho de falar, e não posso falar, e estou só."

    Rousseau, por Larrosa.

     

  6. Nada mais doce que um café amargo e bem forte logo pela manhã. Há coisas melhores, bem sei eu, mas agora, não posso pedir mais que isso.
    Se é que peço. Se é que posso.
    Não importa. Importa que me faz lembrar Ela.

    - Gosta do Sol, meu filho? – minha avó pergunta enquanto estende roupa.

    - Queria ele pra mim. (“-ia”. Futuro do Pretérito. Droga.) É pedir demais? Ou até querer demais? Querer demais existe? O que é demais? Quando se torna demais? Algo se torna ou já é demais? Tá demais, não? – o pensamento me ocorre.

    - Sim, gosto. – realmente respondo.

    Pelas manhãs ensolaradas sento-me na poltrona dela, bem ao lado da janela, como se sentasse ao lado do Sol, como se me fizesse companhia ou vice-versa. Mas fazer companhia para o Sol é querer demais (Isso existe?).
    Logo ele. Com todo seu fogo. Seu Eu. Seu Ego-Heliocentrismo. Com sua majestosa e brilhante coroa. Com todo o calor que ele possui. Em todo o seu tamanho.
    Logo eu, pessoa tão banal, querer servir de companhia pra algo tão rei. Insignificante eu.
    Sem Ego, sem coroa. Me faz lembrar Ela.

    Acordei meio assim hoje. Não que não acorde mais assim nos outros dias. Também não que acorde nos outros dias.
    Acordo em todos os dias de todos os jeitos. Acordo fazendo acordos, como se quisesse fazer as pazes, como se ao abrir os olhos me deparasse com uma guerra. Não vem ao caso…
    Mas sempre tem algum ou alguém que prevalece. Algum - ou mesmo alguém, como disse - que grita e bate. Bate forte pra eu perceber que está lá. Algum que se diz fazer mais presença. Ou alguém. Insignificante…

    Acho que é pelo calor. Estranho, não gosto do calor.
    Não suporto. Me dá nos nervos. Não consigo parar quieto.
    Me dá sempre uma grande moleza. Daquelas que te fazem deitar na rede.

    Rede… Faz-me lembrar Ela, seja como for. De informações ou a do baiano. Sentado e digitando, ou deitado, esperando o Sol se despedir e trazer, com a sua partida, o mar de estrelas e a majestosa Lua.
    Até hoje me pergunto o que/quem traz o que/quem. O quê é o quê. Quem é quem.
    Como se houvesse alguma razão ou loucura.
    Se é perseguição ou se é fuga.
    O Yin e o Yang.
    Opostos e/ou complementares.

     

  7. Olhou-se no espelho imundo, completamente nu, daquele banheiro também imundo. Tentava não olhar para o rombo no meio do peito, aquele buraco negro o qual tinha um imenso ódio de carregar.
    Dizia para si que precisava de um banho quente. Um banho quente, bem quente. Afinal, fazia tanto frio do lado de fora quanto do lado de dentro. Mas, sim, um banho quente era tudo o que ele precisava.
    Ou era o que pensava.

    O banho quente fora trocado pela enxurrada fria de pensamentos onde afogou-se e lá ficara imergido.

     

  8. E não adianta;
    essa coisa de pisar em poça d’água e não afundar até o pescoço
    não é comigo.

     

  9. - O verbo querer é feio…
    - Se é…

    (silêncio)


    - Falei da conjugação dele.
    - Eu também. Afinal, eu quero…


    (silêncio)

     

  10. Quando digo que quero ir para casa ou para qualquer outro lugar só para ter um pouco de paz, não quer dizer que quero ficar sozinho…